Cinemão nos rincões do litoral: chegando a Solidão em Mostardas
🎬 Cinemão Crioulo na Solidão: o cinema chega onde o vento conta histórias
Por Daniel Godoy
No último mês de setembro, a localidade da Solidão, zona rural de Mostardas (RS), viveu uma noite rara e memorável. Sob o céu limpo e o som do mar distante, o Cinemão Crioulo levou sua tela, suas luzes e suas histórias para o coração de uma das comunidades mais simbólicas da região.
A ação faz parte do circuito itinerante de exibições e formações do projeto, que tem percorrido povoados, escolas e igrejas com o objetivo de ressignificar os espaços de encontro e democratizar o acesso à experiência cinematográfica, especialmente em territórios marcados por distâncias geográficas e simbólicas ao apresentar o documentário Lá Vêm as Bandeiras e os produtos do inventário cultural.
Cinema e território: quando a imagem acende a memória
Na Solidão, o Cinemão Crioulo não foi apenas uma sessão de filmes — foi um ato de presença cultural e poética. As cadeiras do salão comunitário e as famílias reunidas em torno da projeção formaram uma paisagem viva daquilo que Milton Santos chamaria de uma nova psicoesfera do território: um campo simbólico de afetos, saberes e memórias.
Foi exibido o documentário “Lá Vêm as Bandeiras”, que tratam da cultura popular, das festas do Divino e do Rosário, e das histórias orais de Bojuru e Estreito. As imagens emocionaram quem se reconheceu nas cenas: vozes antigas, tambores, bandeiras, cavaleiros, marés e rezas — todos reaparecendo, agora iluminados pela luz do projetor.
“É bonito ver o que é nosso passando na tela grande”, disse Dona Zefinha, moradora da comunidade, com os olhos marejados. “A gente nunca pensou que a Solidão ia ter um cinema.”
Solidão: paisagem, ancestralidade e resistência
Localizada entre o campo, o mar e as dunas, Solidão é uma das localidades mais emblemáticas de Mostardas. Seu nome, paradoxalmente, abriga uma das comunidades mais solidárias do município. Ali o tempo corre devagar, o vento sopra histórias e o pertencimento é tecido em torno da fé e da terra.
O Cinemão Crioulo chega como parte do processo de ativação territorial da cultura popular, articulando cinema, educação patrimonial e inclusão digital. O projeto entende o cinema como dispositivo de smartificação sensível do território — uma tecnologia social de conexão, memória e imaginação coletiva.
A presença do Cinemão na Solidão reativa memórias do antigo costume das sessões em paredes brancas, quando os moradores projetavam filmes ou slides educativos trazidos por padres e professores. Hoje, com o apoio de tecnologias portáteis e energia solar, a mesma prática retorna em formato atualizado, misturando ancestralidade e inovação.
Do telão à conversa: a roda como escola
Após a exibição, o que se formou foi mais do que um debate — foi uma roda de conversa viva, com risadas, lembranças e improvisos. Jovens, idosos e crianças trocaram percepções sobre o que viram, conectando o cinema à vida cotidiana em relação a manifestação Tropeiros do Divino mantida viva em Mostardas.
Essa etapa, chamada pelo projeto de “Cine-Roda de Território”, é o momento em que o filme volta a ser palavra, canto e gesto — a pedagogia da escuta e do pertencimento. Nela, a comunidade não é apenas espectadora: torna-se autora, curadora e protagonista da própria história.
Cinemão Crioulo: uma tecnologia social de cultura viva
Idealizado por Daniel Godoy e Bruna Coimbra, o Cinemão Crioulo é mais do que um cinema itinerante: é uma plataforma de mediação cultural que articula audiovisual, educação e memória territorial. O projeto dialoga com os conceitos de Desenvolvimento Territorial Inteligente (DTI) e Smartificação Cultural, apostando na infraestrutura simbólica como base para a inovação social.
O Cinemão Crioulo integra a rede Freguesias Litorâneas e o Ponto de Cultura de São José do Norte, operando em sinergia com a Rádio Norte FM, a TV Clube SJN, o Ateliê Bruna Coimbra e o Instituto Histórico e Geográfico de São José do Norte. A ação na Solidão soma-se a outras realizadas em Bojuru, Estreito e Capão do Meio, consolidando um ecossistema de comunicação e cultura popular digital.
Conclusão: quando a luz se apaga e a memória acende
Ao fim da sessão, quando o telão foi recolhido e o vento voltou a dominar o silêncio, a Solidão já não era a mesma. O cinema havia deixado algo mais que lembranças — deixou uma centelha de pertencimento e de futuro.
O Cinemão Crioulo prova que o cinema pode ser uma tecnologia de reencantamento do território, uma forma de devolver às comunidades a consciência de seu próprio valor cultural e simbólico.
Na Solidão, o cinema não chegou para entreter — chegou para escutar.
Ficha técnica da ação
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Projeto: Cinemão Crioulo – Circuito de Exibições e Formação
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Local: Comunidade da Solidão, São José do Norte (RS)
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Filmes exibidos: Série Lá Vêm as Bandeiras e curtas da Rede Latitude Crioula
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Coordenação: Daniel Godoy e Bruna Coimbra
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Parceria: Ponto de Cultura Freguesias Litorâneas, Rádio Norte FM, TV Clube SJN
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Data: setembro de 2025
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