LAMEIRÃO
LAMEIRÃO – Curadoria Crítica do Vídeo Documental
O vídeo "LAMEIRÃO", produzido pelo geógrafo e pesquisador Fabrício Paula de Souza, constitui um documento audiovisual de alta densidade simbólica e territorial. Situado em São José do Norte, no Rio Grande do Sul, o curta mergulha na vida cotidiana da comunidade pesqueira do Lameirão, revelando as tensões entre tradição e modernidade, invisibilização institucional e resistência cultural.
Ao articular depoimentos, cenas cotidianas e memórias vivas, a obra constrói uma narrativa sensível e politicamente engajada, que transcende o simples registro e se configura como dispositivo de memória e contra-hegemonia narrativa, ao reivindicar o lugar dos pescadores artesanais no imaginário costeiro do sul brasileiro.
1. O Lameirão como Refúgio Ancestral e Estratégico
O vídeo inicia com o reconhecimento do Lameirão como um porto natural de calmaria, referência estratégica para a navegação artesanal e industrial em tempos de adversidade climática. O relevo lamacento e as águas protegidas oferecem uma geografia de acolhimento, em contraste com os perigos da Quarta Secção da Barra. A valorização das condições naturais como aliadas da cultura pesqueira revela uma leitura ecológico-cultural do território – um exemplo clássico da categoria "lugar" na geografia humanista.
2. Vulnerabilidades Infraestruturais e Burocracia Institucional
Apesar de sua importância histórica e funcional, o Lameirão enfrenta processos de marginalização infraestrutural, especialmente pela ausência de dragagem e pelo assoreamento de antigos canais de acesso. As falas dos moradores expressam um sentimento agudo de abandono pelo poder público, acentuado por obstáculos burocráticos e políticas distantes da realidade local. Tal invisibilização ecoa a crítica de Milton Santos (1996) sobre a fragmentação funcional do território e a negação da cidadania técnica a populações periféricas.
3. Patrimônio Imaterial e Histórias da Pesca Artesanal
O documentário recupera a genealogia da pesca artesanal como prática ancestral, com raízes na povoação originária da barra – anterior, inclusive, à fundação da cidade de Rio Grande. As narrativas remetem à presença da escravidão negra nas práticas marítimas e à construção de um saber técnico não formalizado, mas transmitido geracionalmente. O pescador é exaltado como sujeito do mar – alguém que sintetiza coragem, intuição, destreza técnica e resistência. Este ponto conecta-se às discussões sobre saberes tradicionais e epistemologias do sul (Santos, 2009).
4. Amor, Precariedade e Luta pela Continuidade
O vídeo confere protagonismo ao amor à profissão, mesmo em cenários de precarização econômica e diminuição dos estoques pesqueiros. Há uma consciência aguda de que a pesca artesanal já não oferece o retorno financeiro de outrora, mas persiste como modo de vida e identidade coletiva. Tal postura expressa o que a antropóloga Maria Isaura Pereira de Queiroz denominou como “persistência cultural diante da pressão modernizadora” – uma forma de resistência ativa.
5. Desenvolvimento em Disputa: entre a Modernização e a Marginalização
Um dos momentos mais potentes do vídeo é a crítica explícita ao deslocamento da praticagem e da gestão portuária para o outro lado da barra, deixando a região do Lameirão e sua comunidade à margem dos processos de modernização. O contraste entre “megaestruturas” portuárias e o cotidiano dos pescadores revela um cenário de territorialidades em disputa – uma smartificação do litoral que exclui aqueles que o construíram historicamente. Essa tensão dialoga com a noção de território usado de Milton Santos e com os debates contemporâneos sobre justiça territorial e governança costeira.
Conclusão: Um Território de Resistência e Esperança
O vídeo "LAMEIRÃO" é mais do que uma peça documental. É um testemunho audiovisual insurgente, que clama por reconhecimento, inclusão e políticas públicas sensíveis às singularidades do litoral sul gaúcho. Ao dar voz aos pescadores, recuperar memórias e tensionar discursos oficiais, ele se inscreve no campo das tecnologias sociais da memória, contribuindo para a patrimonialização crítica de um modo de vida ameaçado.
Com isso, o documentário cumpre o papel fundamental de curadoria afetiva e política do território, e torna-se ferramenta didática, memorialística e propositiva para projetos de pesquisa, extensão, ensino e salvaguarda cultural.
Assista ao vídeo completo em: https://www.youtube.com/watch?v=kA0bnQtArt8
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