LÁ VÊM AS BANDEIRAS

 



Entre o Território e a Imagem: uma curadoria como gesto político e poético

A curadoria do documentário Lá Vêm as Bandeiras nasce do encontro entre a pesquisa-ação cultural, a pedagogia do território e a estética da memória. O filme, concebido a partir de mais de duas décadas de imersão etnográfica nos distritos rurais de São José do Norte, propõe uma leitura geopoética das manifestações do Divino e do Rosário, revelando como os rituais de fé e festa estruturam um verdadeiro sistema de inteligências territoriais.

A curadoria do Cinemão Crioulo compreende o documentário não como simples registro audiovisual, mas como dispositivo de reencantamento do território — um artefato que devolve às comunidades a consciência de seu próprio protagonismo cultural. A imagem, neste contexto, é um campo de disputa simbólica e epistêmica: ela reterritorializa o olhar sobre o Sul do Brasil e reinscreve as vozes afro-litorâneas em um continuum de resistência, saber e ancestralidade.


A Imagem como Território do Comum

Inspirado em Milton Santos, o Cinemão Crioulo entende o audiovisual como forma de mediação entre a psicoesfera da cultura (os valores, crenças e sensibilidades) e a tecnoesfera da produção contemporânea (as tecnologias, plataformas e redes digitais). Assim, o documentário Lá Vêm as Bandeiras atua na zona de contato entre oralidade, espiritualidade e técnica — um espaço onde o comum emerge como categoria política.

Ao apresentar as corridas das bandeiras do Divino e do Rosário, o filme propõe um deslocamento epistemológico: aquilo que durante séculos foi marginalizado como “folclore” é reinscrito como tecnologia social de produção de pertencimento. A câmera torna-se ferramenta de devolutiva cultural simples e poderosa, não instrumento de extração. Cada plano, cada voz e cada silêncio compõem um mosaico territorial de saberes partilhados.

Curadoria e Epistemologias do Sul

A curadoria foi orientada pelas epistemologias do Sul (Santos, 2018; Walsh, 2020), pela noção de performatividade do território (Lyotard, 1986; Haesbaert, 2021) e pelo conceito de Desenvolvimento Territorial Inteligente (Godoy & Spinelli, 2025). Essas referências sustentam a ideia de que a salvaguarda do patrimônio imaterial não se faz apenas por inventário ou lei, mas por meio da ativação das memórias vivas e da circulação das narrativas nos meios contemporâneos.

Nesse sentido, Lá Vêm as Bandeiras é mais do que um filme: é um ato de insurgência estética. Sua curadoria propõe uma reescrita da história cultural nortense desde dentro, com vozes que falam em primeira pessoa — cantadores, devotos, mulheres rezadeiras, crianças. É uma pedagogia do sensível, na qual a imagem não “representa”, mas “presencia”.

Cinemão Crioulo: política do olhar e pedagogia da escuta

O Cinemão Crioulo, enquanto plataforma curatorial, opera a partir de um tripé conceitual: ver, ouvir e devolver. Ver é reconhecer a potência estética dos territórios; ouvir é permitir que as narrativas se enunciem por si; devolver é construir com as comunidades a sua própria imagem pública por muito invisibilizada.

A curadoria do documentário assume, assim, uma dimensão ética e política: descentralizar o olhar, descolonizar a escuta e reconfigurar o audiovisual como território de justiça cognitiva. Cada exibição pública é pensada como ritual comunitário de partilha, no qual o filme devolve à paisagem o som da própria terra.








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