MANIFESTO DO CINEMÃO
MANIFESTO DO CINEMÃO CRIOULO
Por uma imagem de raiz para um Rio Grande do Sul plural, diverso, negro, indígena, feminino e popular
1. Quebrar o espelho branco: o cinema como ferramenta de (re)conhecimento de territórios e territorialidades
O que vemos quando olhamos para as telas que nos representam? O que representamos nas palvras que usamos? Quais rostos, quais palavras, quais vozes, quais significados, quais danças, quais ausências, quais silêncios estão presentes aqui e nos rincões da cultura do Rio Grande do Sul?
Por quase um século a imagem dominante do Rio Grande do Sul vêm sendo a de um território monocromático, narrado e discusado no masculino, no branco, no rural universalizado, no “gaúcho” idealizado que se distância dos gaúchos originais que se levataram contra um regime de poder lá pelas bandas do Uruguai há cerca de 200 anos atrás.
No chão dos nossos rinões a cada dia vemos mais a existência de gaúchos e gaúchas reais. Distantes do imaginário fabuloso que circulo pelos desnehos da Disney por décadas. A grande ideologia que vendo a imagem do gaúcho para o mundo. Hoje também nos rouba a essência, nossas história e a realidade vivada.
Por isso nosso trabalho foca em trazer a presença da gauchicidade litorânea, apresentando elementos típicos do ser e do viver que faz dessas pessoas, grupos culturais únicos, ao mesmo tempo, cheio de elementos culturas do mundo todo, o que também os fazem universais.
Nesse contexto, ao idos de 2025, o Cinemão Crioulo surge para estilhaçar invisibilidades e construções distorcidas e falsas das nossas identidades. O Cinemão nos faz memorar as ausências da nossa história e resignificar os galpões da existência moderna do povo gáucho, mas nos lelvar a imaginários, representações mais plurais, mais conectadas com a realidade vivida. Ao mesmo tempo ajudar no filosfar para novas práticas de enfrentamentos dos nosso grande problemas, como a descriminação social, dos racismos, as desigualdades e a violência.
Não para negar o que fomos, mas para reconstituir o que sempre fomos, a cada palavra, a cada imagem, manifestamos a nossa complexidade, evidenciamos a contradição histórica que impulciona o futuro. Promovendo as atitudes que superaram e enfretam os nossos desafios culturais ao comparilhar a beleza de nossa arte de viver.
2. Crioulo como revolta semântica, resingificação e reinvenção simbólica que ecoa dos fundos das chacaras e de seus galpões
“Crioulo” é palavra marcada. Historicamente associada à negritude nascida em solo colonial nas Ámericas. No caso do Rio Grande Sul no século XX foi esvaziada, neutralizada e recodificada pelo Movimento Tradicionalista Gaúcho como sinônimo de “gaúcho típico”. De modo que acabou se apagando a presença negra, indigena e mestiça do significado da palavra. O uso do termo em nosso projeto é diferente. O Cinemão possibilita tensionar sentidos para além de debates academicos alienigenas e distante do dia a dia.
O Cinemão Crioulo reativa o termo como icone de reterritorialização política, ética e poética, abrindo espaço para que quilombolas, pescadores, indígenas, ribeirinhos, migrantes, mulheres e juventudes possam questionar sua presença na cultura e em eventos culturais pelo litoral do RS.
3. Diversidade não como pauta, mas como fundamento
A cultura popular do Rio Grande do Sul é plural e diversa. Ela não cabe nos moldes estreitos das representações. É feita de bandeiras do Divino e do Rosário, de Pagamentos de Promessa (congadas) e Cantorias (folias), de benzedeiras e rezadeiras, de batuques e tambores mas também de sentimentos e vivências. É feminina, mestiça, entrelaçada de rituais, cantos, rezas, redes e fios de memória. Mas essa diversidade não é apenas folclore: é política, é epistemologia, é estética.
O audiovisual de raiz, como propomos, precisa estar comprometido com essa diversidade não apenas como tema, mas como forma de produção. Isso significa:
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Filmar com e não sobre
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Montar coletivamente as narrativas
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Escutar as vozes femininas que sustentam os rituais
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Acolher a fala das crianças, das parteiras, dos lavradores, das mestras da cultura
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Abrir espaço para que diferentes identidades étnico-raciais protagonizem suas próprias histórias
4. As mulheres que sustentam os mundos
Nas festas do Divino e do Rosário, nos terreiros, nas escolas do campo, nos ranchos de pesca, nas cozinhas de mutirão e nas redes de cuidado comunitário, são as mulheres — negras, brancas pobres, indígenas, mestiças — que seguram as pontas. Elas costuram as bandeiras, preparam a comida, ensinam as crianças, cuidam dos mais velhos e mantêm viva a chama da tradição.
No Cinemão Crioulo, reconhecemos esse protagonismo e o traduzimos em imagens que não objetificam, mas escutam. A câmera se curva em respeito. O som se molda à cadência da fala feminina. O roteiro se abre à oralidade matriarcal. Porque a luta por representação é também a luta por reconhecimento das epistemologias do cuidado, da afetividade, da transmissão entre gerações.
5. Pluralizar o imaginário, democratizar a produção
Produzir audiovisual nativo e de raiz, no contexto da Cinemão Crioulo, é mais do que levar filmes a rodeios e festas de Comunidades Tradicionais. É fazer germinar redes de sentido, formar jovens realizadores, aproximar escolas e territórios, deslocar o eixo da produção simbólica do centro para a margem. É performar a diversidade como linguagem, não como exceção. É assumir a radicalidade da escuta — escuta do território, escuta dos saberes, escuta dos silêncios históricos.
Nosso cinema é de barro, sal, vento e tambor.
É movido por mutidão, multidute, improviso e ancestralidade.
É uma casa sem paredes, uma sala de exibição efemera, uma projeção que risca o espaço com histórias que o colonialismo tenta apagar.
6. Por um novo pacto ético-cultural no Rio Grande do Sul
É urgente criar — nas políticas públicas, nas escolas, nos festivais, nos editais — um novo pacto ético com a diversidade e relações étnico raciais. Isso exige abrir espaço real para as culturas populares e suas matrizes não eurocentradas. Exige reconhecer que não há democracia cultural sem justiça racial, de gênero e territorial. Significa problemaziar publicamente com respeito e não pelo cantos, pelos bastidores. Cada palvra, cada gesto precisa ser discutivo, conversado, tensionado. Não há audiovisual transformador sem que os povos dessa terra possam contar suas histórias com seus próprios meios e tensionar o que e como é contado.
O Cinemão Crioulo é, assim, mais que um projeto: é uma insurgência audiovisual com ética ancestral e vocação futurista.
7. Chamado à ação
A quem lê este manifesto, fazemos um chamado: juntem-se a nós.
Nas escolas, nos quilombos, nas aldeias, na vilas, nos movimentos de juventude, nos coletivos culturais e nos setores públicos sensíveis à mudança, o cinema pode ser uma ferramenta de revolução simbólica. Que os próximos roteiros sejam escritos por mãos negras, indígenas, femininas, periféricas. Que as telas do Sul reflitam o Sul real: múltiplo, vivo, contraditório, profundo.
Projeto Cinemão Crioulo
Ponto de Cultura Freguesias Litorâneas
Coordenação: Prof. Daniel Godoy
📧 contatodanielgodoy@gmail.com | 📞 (53) 99969-2348
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